
O convite surgiu no bar pré-histórico daquela semi-ladeira na Vila Nivi, ambiente escuro e empoeirado sem qualquer indicação para uma lady de garbo & elegância como esta.
Potencialmente surda, mas ainda sim uma lady.
- Porra, Manuela, larga dessa história de ser artista e faz algo de útil dessa vida! – descambou o Francisco, molhando o cotovelo encostado no balcão com algum resquício de cerveja anterior, num grau de intimidade típico de quem não tem mais freios para dar o pitaco que for na vida alheia.
Você deve estar pensando: ‘que coisa mais estranha, um cara e uma mina dentro desse muquifo bebericando cerveja barata – e quente, trocando impropérios altos um pro outro em meio a um verdadeiro asilo de velhos’…
É que eu e Chiquinho ‘agitamos’ tanta mulecada um pro outro pra bitoca e, vá lá – uma passassão de mão ou outra durante o pico hormonal entre a infância e a adolescência, que acabamos sublimando qualquer possibilidade de ‘sarro’ entre nós: coisa de vizinhos, sabe?
O que acabou surgindo foi uma camaradagem típica de machos. Ah, e o bar é a única opção de lazer (lazer?) do bairro.
Chico se referia ao porão da minha casa entulhado dos rabiscos a que me dedicava depois da escola – ou o que eu preferia chamar de arte.
Mas fazer arte num Brasil que tinha Itamar na presidência era tarefa inglória, depois daquele mauricinho que, entre outros absurdos, destruiu o pouco de cinema que ainda restava nessas terras. Se o cinema não ia bem, que dizer das outras artes mais, hum, digamos, elitistas??
- Já superei essa fase, Chiquinho, tô nas letras agora…
- Pior! Escuta o que eu te falo: com esse ouvido aleijado que você tem…
- Olho o respeito gordofilhodaputa!
- Que mané respeito, tu sabe que tu pra mim é homem. Então segura a bronca agora. Como eu dizia: com essa sua surdez abençoada – melhor assim? – tu consegue a cota de vaga fácil fácil lá nos Correios!
(Corta pra três meses depois)
O suor escorre na testa sob o calor de 40 graus do outono paulistano, enquanto Manuela enfrenta um caminho completamente irregular de calçadas na periferia braba. Uniforme azul e amarelo empapado de suor, principalmente nas costas
- De tanto carregar peso naquela maldita central, daqui a pouco acabo ganhando muque de homem – ela pensa.
É quando decide percorrer com uma das mãos o braço oposto. Começa ainda pelo tecido grosso da manga dobrada, quando se depara com um tufo grande de pêlos que faz o coração disparar.
Ela para sobre a rampa que protege uma casa dos alagamentos e solta do ombro a bolsa azul carregada de cartas. Esta atônita, a aba do bonezinho azul que compõe o uniforme acompanha a direção dos olhos que percorrem o braço peludo.
Pele muito morena de sol, pêlos escuros e grossos. De repente, pequenos sulcos formados pelos músculos extremamente salientes, saltando mesmo dos braços, rijos, com veias nascendo a cada centímetro.
Flexionou o braço e o que sentiu apertar na manga da camisa foi um biceps ‘de batata’, tanto pela forma quanto pela consistência.
Manuela acabava de desenvolver braço de homem.

Exercício de escrita ficcional pra oficina de mesmo nome que eu fiz no Sesc Belenzinho, em São Paulo, com o autor Marcelo Carneiro da Cunha (que publica principalmente com a ed. Record), COMPLETAMENTE influenciada pelo Reinaldo Moraes que eu lia durante.