Nelson Pereira dos Santos confirma: a ABL* não serva pra nada!

Você é também um imortal da *Academia Brasileira de Letras. Como é a rotina como membro? Ela se resume a tomar o famoso chá? 

Além do chá, quando acontece sempre um ótimo papo, e das palestras, conferências, dos recitais, concertos e teatro, funciona o nosso cineclube, que ocorre toda sexta-feira, às 18h30. O programa atual é sobre música de cinema.

Ou seja… – trecho de entrevista do cineasta à Revista da Livraria Cultura.

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Jornal de domingo – o ar de Paris de Duchamp

( . . . ) Em certa ocasião, construiu uma gota de cristal com ar de Paris e deu de presente a uns amigos de Nova York.

Ar de Paris, ele a intitulou.

‘Como meus amigos tinham praticamente tudo, levei para eles 50 centímetros cúbicos de ar de Paris’, Duchamp comentaria anos depois.

Trecho do novo e ainda inédito livro do autor espanhol Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan (CosacNaify), publicado no caderno Ilustríssima, da Folha de hoje.

Tem a ver: Empresa vende pingente com cópia do DNA de Justin Bieber

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Duas impressões sobre amizade masculina, por Adolfo Bioy Casares

( . . . ) se puseram a urinar na rua. Gauna recordou outras noites, em outros bairros, em que tambem, sobre o asfalto, à luz da lua, haviam urinado juntos; pensou que uma amizade como a deles era a maior doçura para a vida do homem. (p.18)

Você vive tranquilo com os amigos, até que aparece a mulher, o grande intruso que leva tudo de roldão. (p.52)

No livro O Sonho dos Heróis, do autor argentino em questão, que estou lendo.

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Pugnax

Numa extremidade da gôndola, indiferente aos que iam e vinham pelo tombadilho, batendo de vez em quando a cauda de modo expressivo contra as tábuas do assoalho, o focinho enterrado nas páginas de um volume do sr. Henry James, um cão de nenhuma raça em particular parecia absorto no texto à sua frente. Desde o dia em que os Amigos, no decorrer de uma missão na capital da nação (…), salvaram Pugnax, na época ainda um mero filhote, de um conflito furioso, à sombra do Monumento a Washington, entre duas matilhas rivais de cães sem dono, ele tinha o hábito de perscrutar as páginas de qualquer material impresso que porventura encontrasse a bordo do Inconveniência, desde abordagens teóricas das artes aeronáuticas até leituras bem menos apropriadas, como folhetins sensacionalistas — embora, ao que parecia, ele gostasse mais de narrativas sentimentais a respeito de sua própria espécie do que de histórias que destacassem os extremos do comportamento humano, que lhe pareciam um tanto extravagantes. Ele aprendera, com aquela facilidade característica dos cães, a virar as páginas do modo mais delicado, utilizando o focinho ou as patas, e todo aquele que o visse entretido dessa forma não podia deixar de perceber as mudanças de expressão em seu rosto, em particular as sobrancelhas excepcionalmente articuladas, que contribuíam para o efeito geral de interesse, envolvimento e — impossível evitar a conclusão — compreensão.

Trecho de Contra o Dia, último livro de Thomas Pynchon publicado no Brasil, em trecho disponibilizado pela Época.

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Pense bem antes de fazer uma pergunta ao Hemingway

O jornalismo não faz mal a um jovem escritor, e pode ajuda-lo se ele sair dele a tempo. Esse é um dos clichês mais surrados que existem, e peço desculpas por usa-lo. Mas, quando você faz perguntas velhas e batidas, expõe-se a receber respostas velhas e batidas.

Ernest Hemingway, em entrevista à Paris Review – via Folha de S. Paulo.

‘Se um artista tiver que roubar sua mãe, não hesitará’

‘Se um artista tiver que roubar sua mãe, não hesitará’

A única responsabilidade do artista é para com sua arte. Ele tem um sonho. Que o angustia tanto que ele precisa se livrar dele. Ele não tem paz até que isso aconteça. Vai tudo por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para se ter o livro escrito. Se um artista tiver que roubar sua mãe, não hesitará.

William Faulkner, em entrevista à Paris Review – via Folha de S. Paulo.

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‘As Coisas’

Estou lendo esse livro As Coisas, do francês Georges Perec - bem elogiado pela crítica brasileiro, inclusive, e algumas passagens do trecho em que cheguei me chamaram atenção pela coincidência com o meu momento atual (e imagino que muitos possam se identificar tambem); seguem:

(…) aos trinta anos, qualquer um deve estar bem estabelecido, ou não é ninguem. E ninguem está bem estabelecido se não encontrou seu lugar, se não cavou seu buraco, se não tem suas chaves, seu escritório, sua plaquinha. (…) (página 49)

Ao acordar, se sentiam terrivalmente amargurados; toda noite voltavam para casa cheios de rancores, em metrôs lotados; debabavam, embrutecidos, sujos, no sofá, e então só sonhavam com longos fins de semana, com dias sem ter o que fazer, com acordar tarde.

Sentiam-se cerrados, apanhados numa armadilha, perdidos, igual a ratos. Não conseguiam se conformar. Ainda acreditavam que tantas coisas podiam lhes acontecer, que a própria regularidade dos horários, a sucessão dos dias e das semanas lhe pareciam um obstáculo que não hesiatavam em qualificar de infernal. (…) (p.50)

Uma perspectiva dessas não é reconfortante. Ninguém se entrega a ela sem esbravejar. Ora bolas, pensa o jovem que está começando, vou ter de passar os dias dentro dessas salas envidraçadas em vez de ir passear nos campos floridos? Vou me flagrar cheio de esperança nas vésperas das promoções, vou estimar, vou intrigar, vou ter de me controlar, eu, que sonhava com poesia, com trens noturnos, com areias quentes? (…) (p.52)

Queriam gozar a vida, mas, para onde quer que olhassem, esse gozo se confundia com a propriedade. (…) (p.53)

O livro, onde nada realmente acontece – melhor dizendo, em que não há uma trama específica, é na verdade uma grande observação documental, todo cheio desses insights sobre as aflições humanas nesse suposto momento em que se vira da juventude para a idade adulta. E apesar do subtítulo - um romance dos anos 60, cabe muito bem à atualidade (não por acaso, o Perecs – que entre suas qualidade sabe posar como ninguem para as câmeras, tem uma outra obra chamada, veja só você, A Vida Modo de Usar, que saiu pela mesma Companhia das Letras).

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Adorno é uma graça

(. . .) Quando estava na faculdade e ouvi falar pela primeira vez sobre Adorno, abri um sorriso e fiquei esperando o momento em que o professor sublinharia a graça daquele nome, mas o momento não veio. Será que só eu percebia que éramos 30 pessoas discutindo seriamente o trabalho de um sujeito chamado Enfeite, Ornamento, Penduricalho? Ainda mais absurda me pareceu a situação ao me dar conta, no fim da aula, que boa parte do trabalho do dr. Enfeite consistia em acusar a indústria cultural de baratear a arte, de substituir as grandes obras por produtos vazios, ocos, por meros… adornos?

Por que será que fazemos tanto esforço para evitar o humor?

Antonio Prata, seu lindo!

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