Leilão de gado na TV, por Vanessa Barbara

( . . . ) foi com prazer que me vi perdidamente envolvida no mundo da criação do gado nelore, iniciando-me num leilão de muares que passou ao vivo no Canal Rural.

Foram quase quatro horas de portentosos bovinos desfilando na tela enquanto compradores davam seus lances por telefone e um especialista pecuário descrevia os atrativos de cada lote. Fiquei tão fascinada que foi preciso tirar o telefone de perto, ou agora mesmo teria um novilho pastando no meu quintal. ( . . . )

Scarlat I, por exemplo, era uma vaca de grande consistência em sua progênie. ‘Ô, vaca maravilhosa!’, exclamou o leiloeiro, dizendo ser ‘pigmentada, feminina e com a caixa de crânio linda’. Ela chacoalha o papo, como se concordasse.

Última coluna Vanessa Vê TV, da sempre ótima Vanessa Barbara, na Folha de hoje.

Pense bem antes de fazer uma pergunta ao Hemingway

O jornalismo não faz mal a um jovem escritor, e pode ajuda-lo se ele sair dele a tempo. Esse é um dos clichês mais surrados que existem, e peço desculpas por usa-lo. Mas, quando você faz perguntas velhas e batidas, expõe-se a receber respostas velhas e batidas.

Ernest Hemingway, em entrevista à Paris Review – via Folha de S. Paulo.

‘Se um artista tiver que roubar sua mãe, não hesitará’

Adorno é uma graça

(. . .) Quando estava na faculdade e ouvi falar pela primeira vez sobre Adorno, abri um sorriso e fiquei esperando o momento em que o professor sublinharia a graça daquele nome, mas o momento não veio. Será que só eu percebia que éramos 30 pessoas discutindo seriamente o trabalho de um sujeito chamado Enfeite, Ornamento, Penduricalho? Ainda mais absurda me pareceu a situação ao me dar conta, no fim da aula, que boa parte do trabalho do dr. Enfeite consistia em acusar a indústria cultural de baratear a arte, de substituir as grandes obras por produtos vazios, ocos, por meros… adornos?

Por que será que fazemos tanto esforço para evitar o humor?

Antonio Prata, seu lindo!

+arte&sociedade

Monsanto é o Ecad da comida global

As quatro grandes corporações são Monsanto, DuPont, Syngenta e Bayer. Juntas elas representam algo muito raro, um momento único na história da humanidade: a ascenção do primeiro oligopólio global de sementes alimentícias desde o surgimento da agricultura.

A maioria dos americanos provavelmente não sabe que as sementes que dão origem à comida nas suas mesas – e ao algodão que eles vestem, ao etanol que queimam em seus carros e à forragem que engorda as galinhas e vacas que eles comem – são controladas por um pequeno clube de conglomerados.

( . . . )

Espertinhos que tentam replantar as sementes modificadas podem ser denunciados anonimamente através de um telefone 0800 da empresa [Monsanto]. A gigante chega a contratar detetives particulares para investigar os suspeitos de ‘quebra de patente’. Se necessário, eles são processados – inclusive agricultores que afirmam que suas terras foram acidentalmente infectadas por sementes trazidas pelo vento. Estas táticas de intimidação renderam à empresa alguns epítetos poucos simpáticos, como ‘Gestapo’.

De acordo com uma pesquisa publicada pela revista Science, quase um quarto de todas as descobertas biotecnológicas patenteadas pelas empresas de sementes foram realizadas por universidades financiadas com o dinheiro do contribuinte. (…)

Da Conservation Magazine – traduzido e publicado no Brasil pela nova revista Samuel, em seu segundo número.

‘Monsatã’

Bell Marques usa tênis Louis Vuitton no carnaval de Salvador – ‘o maior do mundo, o maior do mundo’


(clica nas fotos pra entender)

(…) O fotógrafo clica o tênis Louis Vuitton de Bell. ‘Se você me disser que é porque quer um igual, eu deixo’.

(…)

Depois de entregar a chave simbólica de Salvador para o Rei Momo e abrir o Carnaval, o prefeito João Henrique (PP-BA) falou com a coluna sobre a greve da PM, encerrada dias atrás:

Folha – Foi uma surpresa?
João Henrique - Sim. Tanto que eu tava fora [no Rio]. Mas, graças a Deus, deu tudo certo. E hoje nós estamos abrindo aí essa festa, que é a maior do planeta, né?

Que lição fica do episódio, que deixou 176 mortos?
A festa é de muita alegria. Hoje é dia de curtir o Carnaval da Bahia. É o maior do Brasil. Não adianta a concorrência. Este aqui é o maior Carnaval do mundo.

Foram 176 mortos.
Não tem concorrência. É o maior Carnaval do mundo.

Na coluna da Mônica Bérgamo hoje na Folha.

+Brasil

Ah, essa inteligentsia paulistana indie-blasé…

(…) ‘Cara, quando você entra numa padaria e vê aquela pilha de panetone, você pensa: ‘Fudeu: é Natal!’. Aí os trabalhos vão rareando, rareando, as contas chegando, é escola de criança em dobro, é décimo terceiro da empregada, é caixinha de porteiro… Preciso de um emprego assalariado!’.

(…) na vida pessoal, o cantor vivia uma análise combinatória de possibilidades afetivas. Namorou amigos e amigas, que também namoraram entre si. (…)

Os convidados se cumprimentavam com um beijo na boca mais lento que um selinho e mais breve do que beijo de língua. Nos anos 70, boa parte estaria de bata indiana, mas agora o figurino é básico e tende ao preto. Os amigos são gente descolada que gasta dinheiro com cinema, teatro e livros. Quem não é bonito é estiloso, e não há lugar para a falta de charme, seja ele autêntico ou ensaiado. São músicos, produtores e artistas, a maioria atores de teatro que falavam de ensaio, teste de elenco, aula de interpretação e internet. Uma atriz dizia que não aguenta mais ver tanta gente ‘feliz e produtiva’ no Facebook: ‘Essa gente me cansa. É tudo fake!’.

(…) Celso Sim está provisoriamente em Montreal, morando com Kiko – Marcos Francisco Nery, um trapezista baiano de 24 anos. (…) Ao pisar no aeroporto canadense, no início de dezembro, Sim foi retido por mais de duas horas para explicar o que tinha ido fazer lá. Por fim, acabou dizendo à policial: ‘É o seguinte, minha senhora: o objetivo primeiro da minha viagem aqui se chama A-M-O-R’.

(…) Na segunda metade [do show], sacou um papel e disse: ‘Todos os meus amigos me proibiram de fazer isso, mas eu vou fazer’. E limpou a garganta para ler pausadamente uma coluna de José Miguel Wisnik em O Globo:

‘O reconhecimento unânime pelo Supremo Tribunal Federal dos direitos de pessoas do mesmo sexo a usufruírem os benefícios de uma união estável é um marco de civilidade na vida brasileira’.

Pulemos várias partes [e prossegue]:

‘Vou apresentar aqui um esquema em que farei livre e amplo uso da palavra ‘veado’. Meu esquema leva em conta o paradoxo, e diz que há quatro tipos de homens: meio veado, veado inteiro, meio-veado-inteiro e veado inteiro-e-meio.

Homem que é homem é meio veado, porque aceita a natureza variável do seu desejo e está seguro de suas opções heterossexuais, Ele ‘é e não é’ veado. O meio-veado-inteiro é aquele que ‘não é e é’. Já o veado inteiro-e-meio não faz por menos: não contente em ser, exorbita e torna-se ela, porque ‘é e é’.”

Lá do fundo, um amigo gritou: ‘Bicha!’ Daí em diante, o cantor ficou mais performático e o show esquentou. Para o bis, veio com a marchinha História do Brasil, de Lamartine Babo, com uma ligeira alteração:

Ceci virou Iaiá
Peri virou Ioiô
De lá pra cá tudo mudou
Passou-se o tempo da vovó
Quem manda agora é a Lacraia
E a eguinha pocotó, pocotó, pocotó!

Um nome a zerar, perfil do ator e músico Celso Sim na revista Piauí.

+paulistanices