(…) ‘Cara, quando você entra numa padaria e vê aquela pilha de panetone, você pensa: ‘Fudeu: é Natal!’. Aí os trabalhos vão rareando, rareando, as contas chegando, é escola de criança em dobro, é décimo terceiro da empregada, é caixinha de porteiro… Preciso de um emprego assalariado!’.
(…) na vida pessoal, o cantor vivia uma análise combinatória de possibilidades afetivas. Namorou amigos e amigas, que também namoraram entre si. (…)
Os convidados se cumprimentavam com um beijo na boca mais lento que um selinho e mais breve do que beijo de língua. Nos anos 70, boa parte estaria de bata indiana, mas agora o figurino é básico e tende ao preto. Os amigos são gente descolada que gasta dinheiro com cinema, teatro e livros. Quem não é bonito é estiloso, e não há lugar para a falta de charme, seja ele autêntico ou ensaiado. São músicos, produtores e artistas, a maioria atores de teatro que falavam de ensaio, teste de elenco, aula de interpretação e internet. Uma atriz dizia que não aguenta mais ver tanta gente ‘feliz e produtiva’ no Facebook: ‘Essa gente me cansa. É tudo fake!’.
(…) Celso Sim está provisoriamente em Montreal, morando com Kiko – Marcos Francisco Nery, um trapezista baiano de 24 anos. (…) Ao pisar no aeroporto canadense, no início de dezembro, Sim foi retido por mais de duas horas para explicar o que tinha ido fazer lá. Por fim, acabou dizendo à policial: ‘É o seguinte, minha senhora: o objetivo primeiro da minha viagem aqui se chama A-M-O-R’.
(…) Na segunda metade [do show], sacou um papel e disse: ‘Todos os meus amigos me proibiram de fazer isso, mas eu vou fazer’. E limpou a garganta para ler pausadamente uma coluna de José Miguel Wisnik em O Globo:
‘O reconhecimento unânime pelo Supremo Tribunal Federal dos direitos de pessoas do mesmo sexo a usufruírem os benefícios de uma união estável é um marco de civilidade na vida brasileira’.
Pulemos várias partes [e prossegue]:
‘Vou apresentar aqui um esquema em que farei livre e amplo uso da palavra ‘veado’. Meu esquema leva em conta o paradoxo, e diz que há quatro tipos de homens: meio veado, veado inteiro, meio-veado-inteiro e veado inteiro-e-meio.
Homem que é homem é meio veado, porque aceita a natureza variável do seu desejo e está seguro de suas opções heterossexuais, Ele ‘é e não é’ veado. O meio-veado-inteiro é aquele que ‘não é e é’. Já o veado inteiro-e-meio não faz por menos: não contente em ser, exorbita e torna-se ela, porque ‘é e é’.”
Lá do fundo, um amigo gritou: ‘Bicha!’ Daí em diante, o cantor ficou mais performático e o show esquentou. Para o bis, veio com a marchinha História do Brasil, de Lamartine Babo, com uma ligeira alteração:
Ceci virou Iaiá
Peri virou Ioiô
De lá pra cá tudo mudou
Passou-se o tempo da vovó
Quem manda agora é a Lacraia
E a eguinha pocotó, pocotó, pocotó!