Livro novo do Chico

Lá em casa como todas as boas casas, na presença de empregados os assuntos de família tratavam-se em francês, se bem que, para mamãe, até me pedir o saleiro era assunto de família.

Eu por mim sonhava com você em todas as cores, mas meus sonhos são que nem cinema mudo, e os atores já morreram há tempos.

A senhora já deve ter lido que em 1930 os gaúchos invadiram a capital, amarrando seus cavalos no obelisco e jogaram nossas tradições no lixo. Tempos mais tarde, um prefeito esclarecido reabilitou meu pai, dando seu nome a um túnel. Mas vieram os militares e destituíram papai pela segunda vez, rebatizando o túnel com o nome de um tenente que perdeu a perna. Enfim, com o advento da democracia, um vereador ecologista não sei por que cargas-d’água conferiu a meu pai aquela rua sem saída. Meu avô também é uma travessa, lá para os lados das docas. E, pelo meu lado materno, o Rio de Janeiro parece uma árvore genealógica, se duvidar mande um moleque comprar o mapa da cidade. Estes são meus dados pessoais, caso a senhora tenha interesse em atualizar o cadastro.

Trechos do quarto e novo romance de Chico Buarque, Leite Derramado (Companhia das Letras), publicados sábado no Oesp.

 

Vida imita arte
O menino que roubava carros

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