‘Milk’ tardio

Muito se falou sobre a tal das concessões que o diretor Gus Van Sant teve de abrir mão ao seu ‘tradicional cinema de arte/experimental norte americano’ (se é que isso exista de verdade) para levar Milk, de 2008, às principais categorias do Oscar este ano, como a de melhor filme, em que foi uma ‘musculosa’ zebra, ou na irrepreensível vitória de Sean Penn na categoria ‘melhor ator’, pelo papel do personagem real homônimo, Harvey Milk, ativista gay e primeiro assumido a ocupar um cargo público nos Estados Unidos, o de equivalente a vereador, na sempre liberal cidade de São Francisco, Califórnia (parece que até o Colossus, quando os X-Men se mudaram para lá, resolveu sair do armário também).

O que quase ninguém percebeu é que, em Milk, a marca registrada de Van Sant está mesmo é nos detalhes. Como logo em uma das sequencias iniciais, em que do nada começa um romance homossexual entre Penn/Milk e o namorado vivido pelo ator James Franco (o Harry Osborn da trilogia Homem Aranha), companheiros durante boa parte do filme, e que viriam a protagonizar ainda uma das mais belas cenas da fita, no beijo sentados em frente à loja de fotografia da rua Castro.

Quer tensão gay maior do que pegação (beeem de leve) com um desconhecido no subway nova-iorquino? Van Sant puro. Mais tensão? Tome as manifestações pelos direitos gays em São Francisco, em que cada protestante parece ser um grão de pólvora dentro de uma banana de dinamite prestes a explodir. Ou na derradeira cena (e deveras impactante para o cinemão redentor hollywoodiano) que finda o conhecido destino de Milk – não é spolier! -, mostrada da forma mais seca possível.

Mas é claro que não estão lá os closes em slow-motion dos filhos loiros (e de olhos azuis!) da América ao som de indie rock, como em Paranoid Park, de 2007, do mesmo Van Sant. Não lavou a alma do injustiçado Brokeback Mountain, que perdeu o Oscar de melhor filme em 2006 para uma verdadeira pataquada chamada Crash, mas serviu para tirar a Academia ainda mais do armário. O próximo passo, Gus Van Sant?:

Rolling Stone – Muita gente não acredita que os Estados Unidos pudessem eleger Barack Obama, um líder negro. Acredita que o país ainda possa escolher um chefe de Estado homossexual?

Gus Van Sant – Espero que sim…

… O Harvey Milk, por exemplo, seria um ótimo presidente


(in memorian)

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