#tarrafa – ‘Ler pra quê?’


(auto retrato de André Laurentino feito no iPhone – falando nisso…)

Uma tarde, o chefe abriu a porta de sua sala e gritou o meu nome. Eu tinha 19 anos e uns óculos grandes, daqueles cujas lentes vão até as bochechas. Mais do que óculos, eles funcionavam como um escudo, deixando apenas o queixo e parte da testa descobertos.

Entrei na sala e ele logo me mandou fechar a porta. Pediu que eu sentasse. ‘Tanta cerimônia só pode ser sabão’, pensei. Eu era iniciante e não imaginava, no círculo banal de minhas atribuições, qual erro grave eu poderia ter cometido que justificasse uma bronca a portas fechadas. ‘Não deve ser bronca’, concluí. ‘Vou ser apenas demitido’.

‘Queria lhe fazer uma pergunta’, ele disse. Tinha idade de ser meu pai e usava a mesma barba grisalha que eu respeitava em casa. ‘Me diga uma coisa, por que você insiste com esse negócio de ler?‘. Eu, que preparava um discurso maduro de aceitar demissão, não soube o que responder. ‘Tudo o que um homem faz na vida, André’, ele disse, ‘é para transar com uma mulher. E, hoje em dia, livro debaixo do braço não pega ninguém. No meu tempo, sim. Dependendo do livro, você terminava a noite com a mais gostosa da faculdade. Livro era mais importante que desodorante‘. E terminou com um sábio conselho: ‘Larga tudo e vai fazer musculação’.


(André e uma fã no Teatro Guarany, onde termina hoje a Tarrafa, com o Milton Hatoum, que dividiu a mesa com ele, logo à esquerda e os livros do mediador, José Roberto Torero, sobre a mesa)

 

Não segui o conselho, como atestam os meus bíceps, mas temi que nele houvesse uma verdade incômoda.

Se o homem erra, as bestas teimam: segui lendo.

Com o tempo, meu chefe virou meu amigo. Jairo Lima é um intelectual apaixonado, ouve ópera como quem vê copa do mundo, e já leu de tudo. As noites de quinta-feira regadas a gim tônica, música e literatura que passei em sua casa foram fundamentais na minha vida.

Hoje, um sábado de feriadão, estou na Tarrafa Literária de Santos, junto com tantas outras pessoas que teimam em contrariar o conselho de Jairo. Isso mostra que ler ainda é a segunda melhor coisa que se pode fazer na cama. E que os livros não atrapalham a primeira. Graças a ele, e à minha teimosia, me apaixonei e me casei com a mulher mais linda da América do Sul, que é mãe da Anita e da Rosa, uma homenagem ao João Guimarães. Em vez de abandonar os livros. troquei de óculos.

Nem mesmo o Jairo, autor do conselho, parou de ler. Deixou, isto sim, a publicidade e se mudou para Natal, onde é feliz com sua pequena livraria. E com uma nova mulher.

Texto lido pelo autor André Laurentino ao fim da participação dele na Tarrafa Literária, uma das várias falas que comoveu o público e o transformou no provável destaque do evento (ao lado do polêmico Marcelo Mirisola, do ‘gringo louco’ Theo Roos – e não ‘Ross’, como brandam por aí, do sempre ótimo Lourenço Mutarelli e da Márcia Tiburi) – e olha que hoje ainda tem Xico Sá, Amyr Klink, Tim Winton…

Encontrei as duas folhas de papel com o texto esquecidas sobre a mesa de autógrafos após o fim do evento.

E quando eu falo na comoção que ele causou, não é à toa: estou trabalhando na venda de livros do evento (daqui a pouco tambem!) e não foi pequeno o número de pessoas que procurou pelo obra do André, que não é barata: A Paixão de Amâncio Amro custa R$ 42,90.

 

Chegou a hora: evento internacional, Tarrafa Literária acontece no feriadão em Santos

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4 opiniões sobre “#tarrafa – ‘Ler pra quê?’”

  1. simplesmente, adorei…

    parabéns pelo post!!!

    (o André é um fofo e vc tb, claro… ainda bem que vc encontrou o texto… ainda bem que vc tem essa sensibilidade toda pra tornar um texto comovente (como foi tal leitura para a platéia) uma memória aqui para todos nós!)

    beijo, xuxu!!!=)))

  2. Tendo a achar que a Tarrafa ainda renderá muitas histórias, como toda a epopéia que foram os dias em que levamos e trouxemos os livros de lá. Aos poucos essas lembranças serão contadas por cada um de nós (como o 1/4 de beirute que eu deixei cair no chão ou a falsa treta do meu amigo com os caras encostados no carro dele).
    É isso aí, o texto do André Laurentino é demais.
    Passa por lá no blog, tem Tim Winton…

    Abraço

  3. Julio,

    muito bacana você publicar o texto do Laurentino Gomes em seu blog. É um incentivo para todos nós que gostamos de ler; e uma bela resposta aos que perguntam “ler pra quê?”.
    Abraço, amigo.
    Parabéns pelo blog.

  4. Algo que incomoda na literatura atual é essa coisa pueril. Um texto pueril, bobo, com termos grosseiros e sem graça, causa comoção. Ora pois! Perdeu-se a busca pela transcedência, se é que as pessoas de hoje podem imaginar o que seja isso.

    Inevitável sentir-se como o saudoso Merquior, em seu Elixir do Apocalípse: “Ninguém se incomoda muito com o estado da língua, e menos que todos os milhares e milhares de bárbaros e solecistas que ganham, cada ano,
    diplomas em profusão. A gente chega até a sentir certo complexo de culpa, e a tentação de indagar se não se está sendo muito “elitista” com esse tipo de exigência… “

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