Ação e reação

(ação – Fred Zero QuatroFolha, sexta, 18.09)

(…) a despeito de toda a questão do acesso democrático e da maior visibilidade que chegaram com a internet, um fato inegável é que a web tem desestruturado quase todas as cadeias que se envolvem com a digitalização, do jornalismo à música. Hoje é moda celebrar a web, dizendo que finalmente nos livramos dos malas da indústria fonográfica. Tudo bem, a indústria até tinha um aspecto predatório (…)

Se o mangue beat tivesse surgido num ambiente parecido com o que rola hoje, com gravadoras em crise, talvez o mangue beat tivesse se limitado a uma ou duas comunidades de Orkut, uma coisa de gueto.

[No início dos anos 90] A Sony foi a Recife, contratou o Chico Science e bancou o primeiro clipe da banda, que rodou direto na MTV. Finalmente a indústria olhava para nós. E teve um efeito multiplicador forte. As pessoas esquecem isso. Hoje há uma situação sem indústria, sem cadeia produtiva. Está se instalando uma religião da tecnologia, um fundamentalismo tecnológico.

Estamos todos aguardando que surja um novo modelo de negócio baseado na web 2.0. Mas ele não surge.

(reação – Álvaro Pereira Junior, Folhateen, segunda, 21.09)

Não se trata de concordar com ele ou discordar. Eu mesmo já escrevi coisa parecida: no universo musical, a web é uma maravilha só para o ouvinte. Música parece que vai dar cada vez menos dinheiro, atividade de nicho e amadora.

O que sobra da entrevista de Zero Quatro é a ironia: ele era dos caras que vieram chacoalhar o establishment, que traziam modernidade do lugar mais improvável: ‘Somos do mangue, mas temos computadores! Somos cyber! Lemos a Wired!’.


UPDATE:  (réplica – Fred Zero Quatro, G1, domingo, 27.09)

No caso específico da música, por exemplo, eu não posso chegar numa feira livre e pegar quatro tomates e cinco pimentões e levar pra casa, porque eu vou ser acusado de ladrão – e olha que estou falando de coisas que brotam da terra. Primeiro porque estamos numa sociedade capitalista, e segundo porque ali houve trabalho, investimento. É muito doido saber que há uma consciência de sustentabilidade quando se trata da natureza, dos rios, das florestas, e que essa mesma geração não aplica esse conceito quando se trata de música, cinema, jornalismo, formação de debate. Acha que o pensamento, que a produção cultural tem de ser necessariamente compartilhada. O conceito de sustentabilidade devia ser preservado também quando se trata das cadeias econômicas, produtivas, profissionais da cultura.

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