Cursos de escrita criativa

Orgulho e Preconceito

Grande parte dos que buscam, hoje, as oficinas literárias prefere, mais do que escrever, ler. Transformadas em círculos de leitura e de reflexão, muitas oficinas se tornam, assim, um lugar para o exercício do pensamento. Em um mundo cada vez mais dogmático e duro (basta pensar nos fanatismos religiosos e nos fundamentalismos de vários matizes), a literatura se torna um espaço privilegiado para o exercício da liberdade interior. Ninguém se torna escritor sem liberdade interior. As interpretações que a literatura nos oferece do mundo, em consequência, divergem fortemente daquelas vendidas pelas religiões, pela filosofia e, mesmo, pela ciência. Muitos encontram hoje nas oficinas literárias, antes de tudo, um lugar privilegiado para o exercício do ‘livre pensar’. Em um mundo de cânones, dogmas e grupos de sangue, nada mais saudável do que respirar o ar menos opressivo da poesia e das ficções.

A expansão das oficinas literárias corresponde, de certa maneira, a uma decepção com as formas e estratégias tradicionais de pensamento. Em um mundo no qual as universidades se tornam (para bem e para o mal) cada vez mais rígidas e rigorosas, muitos estudantes, mesmo de mestrado e doutorado, encontram nos ambientes mais leves das oficinas um lugar para se encontrar com a literatura, novamente, como um exercício de prazer.

A imagem mais arcaica do leitor é aquele menino solitário que, sob as cobertas e com a luz de uma lanterna, lê Os Três Mosqueteiros, ou Robinson Crusoé, ou ainda Moby Dick. Na leitura mais técnica e gelada da academia, esse espírito de aventura e de segredo em grande parte se perdeu. Muitos acadêmicos só o reencontram no ambiente menos opressivo das oficinas. E ali respiram, experimentando, novamente, um prazer quase juvenil com a literatura.

Desse modo, as oficinas se libertam, pouco a pouco, das expectativas didáticas e mais objetivas que definem os ‘oficineiros’ de primeira viagem. Elas se tornam, ao contrário, uma longa viagem na qual – sem dogmas, sem certezas e sem objetivos – um grupo de pessoas se reúne regularmente pelo simples prazer de escrever e de ler. Em vez de ofício, e voltando a suas origens mais remotas, a literatura se torna, assim, uma celebração.

No Valor Econômico (mas liberado aqui).

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