Hotel mil estrelas

Teto não é casa e casa não é lar. Lar é onde a gente se sente bem, se sente protegido. Por isso, não pense que morador de rua não tem lar. Pode não ter casa, mas tem lar. Sobre as nossas cabeças existe um teto, sim. Um teto natural onde brilham o sol e a lua e as estrelas. É um hotel mil estrelas.

Infelizmente também tem poluição. No nosso teto – o céu – tem uma nuvem de poluição que vem dos carros, das fábricas, da cidade. Dizem que o morador de rua suja a cidade, mas ninguém percebe que a cidade suja o morador de rua. Nossa pele tem uma camada preta grudada que não sai só com água e sabão. Tem que esfregar muito.

Como nossa casa não tem parede, se pode dizer que as portas estão sempre abertas. As quatro estações do ano passam por lá, às vezes numa única semana. (…)

(…) O mais difícil é o sexo e as necessidades fisiológicas. Quando a sociedade tira o direito de uma pessoa ter sua casa, tira também o direito à privacidade.

(…) Em respeito à população, ninguém se banha pelado. Sempre de bermuda.

(…) O quarto é armado e desarmado todos os dias de tardezinha. Guardam fora do olhar da sociedade (em cima de um abrigo de parada de ônibus ou num cantinho escondido) para não queimar o filme.  (…)

Hotel mil estrelas (publicado originalmente na revista Ocas)

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