‘As Coisas’

Estou lendo esse livro As Coisas, do francês Georges Perec – bem elogiado pela crítica brasileiro, inclusive, e algumas passagens do trecho em que cheguei me chamaram atenção pela coincidência com o meu momento atual (e imagino que muitos possam se identificar tambem); seguem:

(…) aos trinta anos, qualquer um deve estar bem estabelecido, ou não é ninguem. E ninguem está bem estabelecido se não encontrou seu lugar, se não cavou seu buraco, se não tem suas chaves, seu escritório, sua plaquinha. (…) (página 49)

Ao acordar, se sentiam terrivalmente amargurados; toda noite voltavam para casa cheios de rancores, em metrôs lotados; debabavam, embrutecidos, sujos, no sofá, e então só sonhavam com longos fins de semana, com dias sem ter o que fazer, com acordar tarde.

Sentiam-se cerrados, apanhados numa armadilha, perdidos, igual a ratos. Não conseguiam se conformar. Ainda acreditavam que tantas coisas podiam lhes acontecer, que a própria regularidade dos horários, a sucessão dos dias e das semanas lhe pareciam um obstáculo que não hesiatavam em qualificar de infernal. (…) (p.50)

Uma perspectiva dessas não é reconfortante. Ninguém se entrega a ela sem esbravejar. Ora bolas, pensa o jovem que está começando, vou ter de passar os dias dentro dessas salas envidraçadas em vez de ir passear nos campos floridos? Vou me flagrar cheio de esperança nas vésperas das promoções, vou estimar, vou intrigar, vou ter de me controlar, eu, que sonhava com poesia, com trens noturnos, com areias quentes? (…) (p.52)

Queriam gozar a vida, mas, para onde quer que olhassem, esse gozo se confundia com a propriedade. (…) (p.53)

O livro, onde nada realmente acontece – melhor dizendo, em que não há uma trama específica, é na verdade uma grande observação documental, todo cheio desses insights sobre as aflições humanas nesse suposto momento em que se vira da juventude para a idade adulta. E apesar do subtítulo – um romance dos anos 60, cabe muito bem à atualidade (não por acaso, o Perecs – que entre suas qualidade sabe posar como ninguem para as câmeras, tem uma outra obra chamada, veja só você, A Vida Modo de Usar, que saiu pela mesma Companhia das Letras).

+livros
+arte&sociedade 

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2 opiniões sobre “‘As Coisas’”

  1. Poxa, querido, fiquei com muita vontade de ler o livro. Acho que o Bryan já tinha comentado algo também, não sei ao certo.
    Eu ando exatamente com essa sensação, já que estou na virada para os 30.
    E apesar de estar (re)começando muita coisa, mudança de cidade, de amigos, de paradigmas, digo que estou bem feliz, realizada.
    Beijão

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