Pugnax

Numa extremidade da gôndola, indiferente aos que iam e vinham pelo tombadilho, batendo de vez em quando a cauda de modo expressivo contra as tábuas do assoalho, o focinho enterrado nas páginas de um volume do sr. Henry James, um cão de nenhuma raça em particular parecia absorto no texto à sua frente. Desde o dia em que os Amigos, no decorrer de uma missão na capital da nação (…), salvaram Pugnax, na época ainda um mero filhote, de um conflito furioso, à sombra do Monumento a Washington, entre duas matilhas rivais de cães sem dono, ele tinha o hábito de perscrutar as páginas de qualquer material impresso que porventura encontrasse a bordo do Inconveniência, desde abordagens teóricas das artes aeronáuticas até leituras bem menos apropriadas, como folhetins sensacionalistas — embora, ao que parecia, ele gostasse mais de narrativas sentimentais a respeito de sua própria espécie do que de histórias que destacassem os extremos do comportamento humano, que lhe pareciam um tanto extravagantes. Ele aprendera, com aquela facilidade característica dos cães, a virar as páginas do modo mais delicado, utilizando o focinho ou as patas, e todo aquele que o visse entretido dessa forma não podia deixar de perceber as mudanças de expressão em seu rosto, em particular as sobrancelhas excepcionalmente articuladas, que contribuíam para o efeito geral de interesse, envolvimento e — impossível evitar a conclusão — compreensão.

Trecho de Contra o Dia, último livro de Thomas Pynchon publicado no Brasil, em trecho disponibilizado pela Época.

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