‘Cosmopolis’ (e o estado atual das coisas) – por Hector Lima*

Cosmopolis é como se o Jack nunca tivesse encontrado o Tyler Durden e investido em alguma startup ou no mercado financeiro e virado um jovem milionário [ou bilionário]. Também acho que talvez funcione melhor em livro [não li ainda]. Pra mim, Cronenberg devia ter cortado do roteiro alguns diálogos e mostrado o que estava sendo dito em imagens – ilustrando o discurso ao invés da verborragia, que mais parece tese de pós. O que é também de certa forma um jeito rebelde de se fazer as coisas num meio que vive de som e imagem pra causar sentimentos, muitas vezes de um jeito muito barato.

Achei o filme arrastado e chato, teatro filmado no pior sentido [às vezes tem filme que faz isso no melhor sentido], mas mesmo assim adorei, pirei muito. Foi quase como uma ginástica mental, fiquei hipnotizado pelas palavras, não sei se porque depois de começar a trabalhar com publicidade, eu ver muito da visão de mundo do Eric por aí. 

Ele é o Zuckerberg encarnado, uma pessoa desumanizada pela ganância e pelo enriquecimento do tráfico de informação à custa do sofrimento alheio. Eric especulava no mercado financeiro de investimento, jogando com o destino de economias estrangeiras que podiam quebrar por um capricho seu.

Zuckera fala tão friamente quanto e vive das informações que a gente compartilha aqui, inclusive desse comentário. Quando um serviço é de graça, o produto a ser oferecido são as pessoas, as informações que a gente alimenta no serviço.

O fracasso do Eric no filme é o que o algoz aponta, de não ver o imprevisível, o natural, o caótico nos padrões que ele analisava pra enriquecer. Achava que tudo era padronizável e mensurável, como as marcas fazem com as interações no Facebook pra saber se as pessoas gostam dela e como interagem como ela. É irônico que, no monitoramento de marcas, exista o quesito ‘sentimento’ pra saber se as pessoas estão falando bem ou mal de algo…

Então o Cosmopolis é sobre a transformação de uma pessoa desumanizada através da reumanização dela, que de certa forma era bem-vinda por ele se for ver como ele abraçou o impulso suicida de perder tudo. Como se ele soubesse que precisava daquilo pra ser gente de novo. Todo filme do Cronenberg é sobre transformação de um ser humano em outra coisa – esse é sobre a quase-transformação de um ‘ciborgue mental’ em uma pessoa novamente, se é que isso seria possível naquele contexto.

*Hector Lima – exclusivo para o Papagoiaba!

+Cosmopolis

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