Chorão: vítima do ambiente que soube muito bem traduzir em palavras, mas não soube lidar na intimidade

Como a muitos outros fãs de música e críticos culturais, Chorão não me interessava como artista, mas como fenômeno pop. Ele personificou um estilo que caracterizou a passagem dos anos 90 para os 00 no Brasil. Antecipou a tão falada ascensão da classe C ao cantar o orgulho de um certo jeito de viver urbano, malandro, calcado na mistura de uma musicalidade pop americana com a cultura das ruas brasileiras – não exatamente a periferia, mas aquela zona cinzenta em que circulam e se misturam personagens marginais com filhos razoavelmente bem nascidos da antiga classe média. Era um recorte vertical e não horizontal da juventude nacional, algo que foi identificado apenas alguns anos depois do surgimento do Charlie Brown Jr. por alguns institutos de pesquisa mais antenados.

Infelizmente, a autenticidade dessa cultura não era acompanhada de muita sofisticação no comportamento. A face mais triste disso era uma certa truculência, um peito empinado, uma empáfia de rua talvez necessária para a sobrevivência em certos ambientes conturbado, mas perniciosa quando transplantada para o mundo dos códigos pop. Um dos pontos significativos nessa estrada foi o soco que Chorão deu em Marcelo Camelo alguns anos atrás em um aeroporto. Para alguns, o gesto era envernizado com um certo ar de molecagem e de macheza diante de um artista chato e sensível. O que é uma total bobagem. O ato foi apenas o desequilíbrio de uma pessoa que não tinha outro meio de se relacionar com uma crítica a não ser batendo em quem o criticou. Triste que tenha acontecido, mais triste que tenha sido revestido de qualquer tipo de justificativa. O jornalista Ricardo Alexandre identificou muito bem esse aspecto mais arisco do Charlie Brown Jr. em uma resenha para a exinta Bizz. Se bem me lembro, ele associava essa truculência com os resquícios da cultura de violência e do autoritarismo do regime militar. Achei brilhante, mas falhei em encontrar esse texto na internet.

Então, por trás de letras cheias de bravatas comportamentais e sociais, provavelmente estava escondido o lamento de uma mente conturbada. (…)

Uma das coisas que mais está se repetindo sobre Chorão nesse momento é como ele falava muito bem com um certo público. Suas letras, de fato, encontravam uma poderosa ressonância com um segmento do público consumidor de música pop. Durante os meses em que treinei numa academia de escalada indoor, o professor colocava um dos discos do Charlie Brown Jr. pra tocar TODOS os dias. Ouvi repetidamente e sempre me impressionava a falta de sofisticação das letras, mas também a clara conexão delas com o momento que o país estava vivendo. Chorão, pelo jeito, sabia muito bem falar com as multidões, sabia muito bem traduzir o ar cultural que o cercava. Mas talvez não soubesse SE traduzir. Infelizmente, especulo de novo, parece que ele não encontrou uma forma de se fazer ouvir no que mais precisava botar pra fora.

No Conector, blog do Gustavo Mini (via @LAmorim)

TEM A VER: R.i.p. Chorão (1970 – 2013)

+arte&sociedade

Papagoiaba no Facebook

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s