‘Casais’

couple

Acordamos às sete da manhã e vamos arrumando a cama, estendendo os lençóis, ajeitando a colcha. Tomamos banho em silêncio, estamos ainda sonolentos, não queremos conversar. É uma boa hora para fazermos amor, mas não temos ânimo. Coamos o café, esquentamos o leite, comemos pão com manteiga, lemos as manchetes do jornal. Lemos as manchetes e deixamos o jornal de lado com o firme propósito de continuar a leitura à noite. Sabemos que não vamos ler depois, mas mantemos viva essa ilusão.Se chove, falamos que está chovendo e o trânsito está uma merda e é impossível viver nessa cidade. Se faz sol, reclamamos do calor, da sede, da luz que quase nos cega. Sempre fazemos algum comentário sobre o tempo.Conversamos futilidades. Nada temos a dizer, mas não podemos viver calados. Quando encontramos alguém, fazemos festa, recordamos os bons tempos, sentimos algo agradável que não sabemos ao certo definir. Nem sempre somos sinceros nessas ocasiões.

Começo do conto no livro O Volume do Silêncio, de João Anzanello Carrascoza [Cosac Naify]; via

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