Arquivo da categoria: elucubrações

Bom fim de semana (?)

Do Feice de Emerrr.

+elucubrações

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‘Eu só queria ser simples de coração’

Eu só queria ser simples de coração. Não pensar mil vezes nas mesmas coisas, não hesitar diante de uma oportunidade, não me importar com coisas pequenas, não decidir ser chato apenas para fazer valer minha opinião – quando meu espírito, mesmo beligerante, está mais para uma expressão pacífica da diplomacia.

Eu queria ser simples de coração, mas não sou. Sou impulsivo demais, desastrado demais, orgulhoso demais, retraído demais. Ofendido demais. Eu sou um reflexo daquilo que, durante muito tempo, eu não quis ser.

Aliás, parando para pensar com bastante justiça e discernimento, eu nunca pensei em quem eu era ou em quem eu queria ser. Apenas fui sendo formado, forçado, crescendo, errando, mentindo, omitindo, falseando, sonhando, contando. Apenas fui. E, hoje, sou.

Queria ser simples de coração porque os simples de coração não parecem se preocupar com as contas, apenas trabalham e as pagam, nem com a briga com a mulher que amam, apenas vão lá e dizem ‘ok, amor, podemos fazer de um jeito diferente, vamos pensar num juntos?’, apenas vão lá e escrevem, apenas vão lá e contam, apenas vão lá e vivem.

Os complicados de coração não têm a chance, sequer a chance de serem um dia simples de coração. É impossível para eles conseguirem imaginar que uma pessoa possa ser mais simples, não bater tanta cabeça por bobagem, não assumir coisas que não existem…

Os complicados de coração, ora, não o são por talento ou por vontade. São por que foram construídos assim. Ensinaram para eles que as coisas têm que ser do jeito deles, que meninas não andam sozinhas na rua depois das 22h, que azul é azul e acabou-se a história e passar a gostar de gatos quando a vida inteira os temeu e os odiou é um sacrifício imenso. Percebam que, mesmo eu sendo um assumido complicado de coração, não consigo encontrar exemplos que sustentem a lógica da coisa.

Cresci e crescemos com crenças absolutas e hoje quando lembro da minha mãe elogiando largamente minha inteligência e ressaltando a minha preguiça em aliar a esta um esforço por notas melhores, entendo de onde vem o meu ego inflado e minha preguiça. Ou o modo enrolado como eu resolvo algumas coisas. Ou a minha incapacidade de lidar com discussões sérias. Ou a minha ineficiência em ser organizado. Criei dentro de mim a necessidade de um pequeno caos constante que me alimenta e me aflige e assim produzo, penso, durmo, amo, vivo.

Quase sempre é muito difícil conviver com uma pessoa assim, complicada de coração. Mas pare e pense como é tão mais complicado sê-la. Como é tão mais complicado se odiar no segundo seguinte ao erro repetido. Como é tão mais complicado ser assim e [não] saber que pode ser de outro jeito.

Assim, e por já não ter muito mais o que falar, peço desculpas. Pelo tom de voz, pela empáfia, pela impaciência na espera, pela ironia, pelas coisas que disse e sustentei, pelas inseguranças bobas, pelas contradições, pela falta de tato, pelo sono absurdo, por parecer distante, por ser tão complicado. De coração, de mente, de peito. De tudo.

Pedro Jansen

Momento ‘poeminha hardcore’

Edital de demissão e ponto

Meu caro poeta:

meta

a lira no c.

(mesmo que doa)

e vê se te aquieta.

O mundo mudou tanto que

amanhã

a lua será lixeira à toa,

privada e refúgio da terra

emudecida,

seu Orfeu.

Erra,

quem pensa que as palavras valem

hoje em dia

-pois a palavra é poesia

e a poesia morreu.

De Rosário Fusco, no livro Creme de Pérolas. Via Folha.

Duas observações sobre um domingo de trabalho

(O casal de turistas com o(a) filho(a) é sempre o primeiro a entrar na loja. E são facilmente identificáveis pela profusão de xadrezes nas roupas vendidas como ‘confortáveis’, e que só tem coragem de usar ‘na praia’, NUNCA num Ibirapuera ou outro parque descolado de cidade no interior, que pedem tecidos mais, hum, ‘tecnológicos’)

(Corta para a filha loira ‘gatchena’ do casal – de olhos claríssimos, fazendo biquinho para o pai (aquele de ‘compra! compra!’) ao se deparar com um livro do Che. Ela leva o livro ao lado do rosto para completar o que daria uma bela peça publicitária-espertinha-para-o-público-jovem-pseudo-engajado)

Tem pouco jogo do Santos na Globo? A culpa é do presidente do clube

Plim-plim

O mesmo Estado de S. Paulo de hoje traz matéria sobre a preferência em transmitir os jogos do time pelo pay-per-view ao invés da TV aberta, o que segundo o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, se justifica do ponto de vista financeiro, graças ao considerável poder aquisitivo do torcedor santista.

Hum. Tenho quase certeza de que a torcida comum do ‘peixe’ nas periferias de Santos, São Vicente, Cubatão, Guarujá, Praia Grande, Guarujá, etc, que tem na TV aberta uma de suas poucas opções de entretenimento – o que inclui a peleja do time de coração, discorda dessa mentadalidade que, se as vendas de ingresso na Vila Belmiro vão bem, e as assinaturas do PFC, melhor ainda, então tudo bem (tudo bem pra quem, cara pálida??).

O que eu desconhecia, e o texto também revela, é que Teixeira, como membro do Clube dos 13 (HÁ, mas que fina ironia, hospedado no portal Globo), é o responsável por negociar os milionários direitos para transmissão de partidas. Ele também está por trás – como é de conhecimento geral na cidade, de um canal de TV, a local Santa Cecília, aqui da baixada, que leva o mesmo nome da universidade (segunda maior da região), que Teixeira também comanda.

Ao falar em bom negócio sobre as transmissões pagas, o cartola parece menosprezar o torcedor e privá-lo de certa forma da paixão alvi-negra (sentimento esse que em teoria ‘alimenta’ o clube – entenda $$$), seja por morar longe e não poder ir à Vila ou não ter a grana pra assistir na TV.

Ainda bem que pra essas e outras existe a internet e o Justin.tv, né mesmo, minha gente boua??

Mas ‘bah’, do que eu resmungo tanto se futebol é esse grande negócio mesmo, já deixou de ser a tal da paixão faz tempos. It’s the economy, stupid.

Buemba! Buemba! Buemba!

E o colunista José Simão, o da foto aí em cima (também ou mais conhecido até como Macaco Simão), foi eleito o Melhor Jornalista de Imprensa Escrita de acordo com uma sondagem realizada pela empresa Análise, Pesquisa e Planejamento de Mercado (APPM), para identificar quem tem “a cara de São Paulo”, em decorrência dos 455 anos da cidade comemorados no último domingo, dia 25.

Agora corta para uma declaração do próprio Simão, José e/ou Macaco (desistente da prestigiosa Faculdade de Direito do Largo São Francisco, na capital paulista), em entrevista à revista Veja São Paulo, que publicou um perfil do figura como matéria de capa em uma edição de 2003:

Não entendia nada de reportagem, só gostava da gandaia da redação [quando ingressou na Folha de S. Paulo]

Longe de mim criticar um não-jornalista, que acrescenta e muito para a profissão no Brasil, ainda que ele não a pratique da maneira como pregam os cânones acadêmicos e ‘de mercado’ [sic]. Mas só consigo deixar impune dessa crítica os não-jornalistas da estirpe de Simão, já que é sempre muito importante ter na redação essa gente que nunca aprendeu como escrever um lead, porém é muito competente no que que faz.

Mas o que o resultado da pesquisa revela mesmo é algo que vem se anunciando há tempos para o jornalismo: não adianta só mais o lead, a pirâmide invertida e todas as outras muitas regrinhas meio furadas da profissão. Diário impresso vai ter que ser o local de opinião e profundidade, espécie de revista publicada nos sete dias na semana, por assim dizer. Porque o feijão com arroz, esse que ainda tenta se empurrar para o leitor dos jornalões todo dia, já cresce fartamente e encontrou porto seguro definitivo na internet. 

Um assunto puxa outro…
Mas falando em arroz  e feijão, que foi o prato mais paulistano escolhido por quem respondeu à pesquisa (cerca de 1.000 pessoas de todas as classes sociais, com margem de erro entre 2% e 3%), os outros resultados revelam um lugar-comum desconcertante: Lima Duarte (melhor ator), Fernanda Montenegro (atriz), Sílvo Santos (apresentador e empresário), Hebe Camargo (apresentadora), William Bonner (apresentador de telejornal), Rogério Ceni (esportista), Titãs (conjunto de rock), Museu do Ipiranga, Parque do Ibirapuera, Monumento à Independência, Avenida Paulista (cartão postal) e rosa (flor).

OK, a pesquisa revela um caráter bem popular, mas não é justamente para o “povão” que também se vende jornal? (perdoem o termo meio pejorativo, não consegui encontrar outro que se explicasse tão bem sozinho) Aliás, hoje em dia, são as versões popularescas de diários, editados por algumas das maiores empresas de comunicação do país que, em boa parte das vezes, sustentam os ditos carros-chefes, veículos tradicionaos e influentes, os nossos conhecidos “jornalões”.