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Entrevistei Moon & Bá na Revista da Livraria Cultura

Até que demorou um pouco para eu comentar aqui – já faz quase uma semana que a revista chegou nas lojas da Livraria Cultura e o texto está no ar, mas vamos lá: entrevistei os irmãos gêmeos que são o maior destaque do Brasil nas histórias em quadrinhos mundiais hoje (e quiçá, desde sempre).

Quer saber por que – entre outras várias e interessantes coisas?? Então lê por aqui – ou pega a revista de graça nas lojas da Cultura (no Conjunto Nacional da Paulista, shoppings Villa Lobos, Market Place e Bourbon em São Paulo; e ainda em Campinas, Porto Alegre, Recife, Brasília, Fortaleza, Salvador, Rio e, em breve, tambem em Curitiba).

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Escrevi sobre ‘Ilusões Pesadas’ na Rolling Stone de junho

Turbilhão típico da adolescência é visto pelo olhar blasé de autor revelação

Sacha é um rebelde sem causa de 14 para 15 anos, tão desanimado com tudo que é difícil simpatizar com ele. O personagem tem o mesmo nome do autor, que é recém-chegado não só à maioridade como ao estrelato literário, hype garantido pela dúvida: seria ficção? Realidade? As duas? A instabilidade de uma paixão gay inspira a melancolia do protagonista e move a trama, junto de bebedeiras e drogas que o complicam na escola e vão terminar em bullying. Por coincidência, um certo estilo em que pensamentos fluem sem freios, similar ao de um diário (ou de vários tuítes e mensagens de SMS), percorre passagens do livro. Citações pop que pipocam vez ou outra reforçam a inércia de Sacha, assim como o cenário de cartões-postais, cafés, baladas e pegações em apartamentos de Paris, com direito a rotineiras viagens de férias ao norte da África – a porção de multiculturalismo que a burguesia francesa parece disposta a suportar.

Minha resenha de ‘Tanto Faz & Abacaxi na Rolling Stone BR de maio

Minha resenha de ‘Tanto Faz & Abacaxi’ na Rolling Stone BR de maio

Odisseia de anti-herói marginal inaugura selo de autores ‘malditos’

Reeditados agora em volume único, os dois primeiros livros do autor paulistano revelam a gênese do tom escatológico que o tornou cult com Pornopopéia. Em Tanto Faz, Moraes se confunde com o recém-trintão em andanças literário-existenciais na boemia de Paris, costuradas pelo apetite sexual insaciável pelas ‘beibes’ das redondezas do Sena – um tratado sobre o macho alfa real (não o ‘coxinha’ politicamente correto de capa de revista). É tambem uma resposta qualificada e oportuna às listas de mais vendidos, infestadas de autoajuda neofeminista 2.0, com uma matilha de homens babões à mercê de mulheres ‘poderosas’. A distância da terra natal ainda provoca um olhar reflexivo sobre o ponto de virada nos anos 80, das tomadas de posição na ditadura – resistente apesar de já mal das pernas, até chegar à indiferença da classe média em formação e a certa perda no significado recreativo das drogas, que justificam o brilho menor de Abacaxi, uma bad trip de volta ao Brasil com escala em Nova York.

Não perdam!

Escrevi sobre ‘Ordinário’ pra Rolling Stone

Exercício de criação ficcional

O convite surgiu no bar pré-histórico daquela semi-ladeira na Vila Nivi, ambiente escuro e empoeirado sem qualquer indicação para uma lady de garbo & elegância como esta.

Potencialmente surda, mas ainda sim uma lady.

– Porra, Manuela, larga dessa história de ser artista e faz algo de útil dessa vida! – descambou o Francisco, molhando o cotovelo encostado no balcão com algum resquício de cerveja anterior, num grau de intimidade típico de quem não tem mais freios para dar o pitaco que for na vida alheia.

Você deve estar pensando: ‘que coisa mais estranha, um cara e uma mina dentro desse muquifo bebericando cerveja barata – e quente, trocando impropérios altos um pro outro em meio a um verdadeiro asilo de velhos’…

É que eu e Chiquinho ‘agitamos’ tanta mulecada um pro outro pra bitoca e, vá lá – uma passassão de mão ou outra durante o pico hormonal entre a infância e a adolescência, que acabamos sublimando qualquer possibilidade de ‘sarro’ entre nós: coisa de vizinhos, sabe?

O que acabou surgindo foi uma camaradagem típica de machos. Ah, e o bar é a única opção de lazer (lazer?) do bairro.

Chico se referia ao porão da minha casa entulhado dos rabiscos a que me dedicava depois da escola – ou o que eu preferia chamar de arte.

Mas fazer arte num Brasil que tinha Itamar na presidência era tarefa inglória, depois daquele mauricinho que, entre outros absurdos, destruiu o pouco de cinema que ainda restava nessas terras. Se o cinema não ia bem, que dizer das outras artes mais, hum, digamos, elitistas??

– Já superei essa fase, Chiquinho, tô nas letras agora…

– Pior! Escuta o que eu te falo: com esse ouvido aleijado que você tem…

– Olho o respeito gordofilhodaputa!

– Que mané respeito, tu sabe que tu pra mim é homem. Então segura a bronca agora. Como eu dizia: com essa sua surdez abençoada – melhor assim? – tu consegue a cota de vaga fácil fácil lá nos Correios!

(Corta pra três meses depois)

O suor escorre na testa sob o calor de 40 graus do outono paulistano, enquanto Manuela enfrenta um caminho completamente irregular de calçadas na periferia braba. Uniforme azul e amarelo empapado de suor, principalmente nas costas

– De tanto carregar peso naquela maldita central, daqui a pouco acabo ganhando muque de homem – ela pensa.

É quando decide percorrer com uma das mãos o braço oposto. Começa ainda pelo tecido grosso da manga dobrada, quando se depara com um tufo grande de pêlos que faz o coração disparar.

– Mas que porra é essa…

Ela para sobre a rampa que protege uma casa dos alagamentos e solta do ombro a bolsa azul carregada de cartas. Esta atônita, a aba do bonezinho azul que compõe o uniforme acompanha a direção dos olhos que percorrem o braço peludo.

Pele muito morena de sol, pêlos escuros e grossos. De repente, pequenos sulcos formados pelos músculos extremamente salientes, saltando mesmo dos braços, rijos, com veias nascendo a cada centímetro.

Flexionou o braço e o que sentiu apertar na manga da camisa foi um biceps ‘de batata’, tanto pela forma quanto pela consistência.

Manuela acabava de desenvolver braço de homem.

Exercício de escrita ficcional pra oficina de mesmo nome que eu fiz no Sesc Belenzinho, em São Paulo, com o autor Marcelo Carneiro da Cunha (que publica principalmente com a ed. Record), COMPLETAMENTE influenciada pelo Reinaldo Moraes que eu lia durante.

Escrevi sobre ‘Ordinário’ pra Rolling Stone

Histórias em quadrinhos “mudas” e com humor ácido sobre o cotidiano

Apesar do título, é quase nada “ordinária” a reunião das 115 tiras do cartunista gaúcho Rafael Sica, publicadas, com estimáveis ausências, primeiro no blog rafaelsica.zip.net, no Brasil Econômico e em outro diário de sua terra natal. A começar pelo charmoso formato que remete ao Moleskine, com capa preta e pontas arredondadas. Todo em preto e branco e de leitura “deitada”, não precisa de uma palavra sequer para se fazer entendido. No posfácio, único texto do livro, o também artista gráfico Fabio Zimbres (influência confessa de Sica) destaca a inspiração “infelizmente muito familiar” do autor, e por isso de fácil assimilação por quem lê. São o registro de paranoias do dia a dia, especialmente urbanas, como dificuldades de relacionamento e inadequação social das mais diferentes formas, tudo com humor cáustico, por vezes poético. A inércia das situações, um tanto quanto fantásticas e inusitadas, invariavelmente termina com um cigarro no último quadro, como que no fim de um coito, ainda que um tanto interrompido.

É na edição de abril, com o Ronaldinho Gaúcho na capa:

SEGUNDO TEXTO MEU PUBLICADO NA ROLLING STONE!!

É na edição de outubro da revista, que chegou às bancas – pelo menos de São Paulo, nesta sexta (15), capa do Wagner Moura com um ursinho à tiracolo (quem te viu quem te vê, Capitão/Coronel Nascimento…).

Para ler no site da Rolling Stone, é só clicar aqui (Mundinho Animal) e aqui (Na Kombi).

E como o scan acima ficou meio comprometido, revelo o texto original, abaixo:

Cada geração tem os animais falantes que merece como alegoria para o dilema do momento. Seja no clássico “A Revolução dos Bichos, de George Orwell (sobre as contradições do comunismo na Rússia sob Stalin em plena Segunda Guerra ) ou no delírio – e no medo! – pelo consumismo desenfreado da classe média cenozóica no seriado “Família Dinossauro, que acena aos anos 1990.

Mas é bem longe desse “cânones” que o cartunista Arnaldo Branco pretende passar em “Mundinho Animal”. Bem pudera, uma vez que o também jornalista é o criador do já mítico personagem Capitão Presença, super-herói politicamente incorreto sempre disposto a ajudar um apreciador da cannabis em perigo (seja por falta da erva, ou de seda…).

Nesta compilação que sai agora de suas tirinhas, Arnaldo precisa de pouco – no máximo quatro quadros e um traço, digamos, “primal” – para vir abaixo com os verdadeiros dogmas que regem a produção cultural no país hoje. E, por consequencia, a afetação no comportamento de quem habita esse meio, devidamente representados por bichanos das mais variadas espécies.

Não sobra pra ninguem: música, cinema, celebridades, literatura, teatro, jornalismo ou a fauna da internet.

Ainda faz parte da coleção de bolso Leya Cult, lançada em parceria com o selo Barba Negra, o livro “Na Kombi”, contribuição tupiniquim à enxurrada de material com origem no Twitter que o mercado editorial tem despejado pelas livrarias no mundo.

“Guiado” por Silvio Lach e Ulisses Mattos, “Na Kombi” reúne o que de melhor já foi publicado no perfil homônimo (@na_kombi) por um respeitável time de colaboradores que, no espaço de apenas 140 caracteres, já pode ser considerado um dos novos bastiões do humor nacional.

Só deixa o Arnaldo saber disso…

Acabei esquecendo de postar o primeiro texto, do mês anterior (capa dos presidenciáveis) aqui! Então segue: