Arquivo da categoria: texto do ano

Poesia, suspense, drama e humor – tudo numa matéria só (e ainda reclamam do jornalismo…)

(…) Escabreados, os clientes recorreram logo à internet para indagar, afinal, que diabos é MGCBARC?!?! [nota do blogueiro: quantidade de pontos de interrogação e exclamação essa digna de uma demissão por justa causa – e de ser alvo de chacota dos coleguinhas (e pior, do editor) na redação *rs!]

Ainda atordoada de sono, a advogada Ericka Gavinho, de 33 anos, acordou se perguntando em qual país estava. Isso porque, ao ver a sigla desconhecida no seu iPhone 5, recordou imediatamente das várias vezes em que apareciam sempre que cruzava uma fronteira durante viagem recente ao exterior. Quando constatou que estava mesmo em seu apartamento no Leme, zona sul do Rio, a dúvida geográfica deu lugar à pulga atrás da orelha tecnológica: ‘Será que clonaram meu telefone ou que fui vítima de alguma invasão?’.

‘(…) Como a rede está funcionando normalmente, vou esperar. Mas se não me disserem o que houve ou se ocorrer problemas, terei que notificar a operadora ou mesmo reclamar à Anatel’.

(…) Procurada pela reportagem, a Telefónica/Vivo informou que a resposta para a curiosidade de todos não é tão intrigante: nada de redes clonadas, antenas fantasmas ou invasões. De acordo com a operadora, o que houve foi um ajuste de rotina realizado nos equipamentos da Vivo que, por alguma falha, não atualizou o nome da operadora.

(…) Mas, afinal, o que significa MGCBARC? É o nome da central telefônica à qual a estação rádio-base (ERB) — grosso modo, a antena da operadora — está ligada.

O autor da façanha é o repórter d’O Globo Rennan Setti, que transformou uma pauta insossa (na verdade, uma não-pauta) numa coisa que dá gosto de ler, daqueles casos pra mostrar em sala de aula na faculdade de jornalismo. Duvida? Então vamos recapitular alguns trechos:

Escabreados

acordou se perguntando em qual país estava

constatou que estava mesmo em seu apartamento no Leme, zona sul do Rio

pulga atrás da orelha tecnológica

E a escolha da fonte/personagem tambem é outro trunfo: onde já se viu fazer uma denúncia à Anatel pela simples troca de uma palavra (‘Vivo’) por outra – a sigla estranha, no celular?? (e que depois revelou ser um mero ajuste técnico). Mas tudo bem, afinal, ela já tinha vivido isso na pele quando cruzou fronteiras em uma viagem ao exterior *rs!

Resta saber quem foi o editor igualmente espirituoso que liberou o parágrafo que animou nossa vida na internet hoje :)

+jornalismo

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Os decididos, ainda bem que não sou eles!

Tem aqueles que

Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.
Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.
Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.
Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.
E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.
Às vezes os invejo
– por sorte isso passa.

Para o meu poema
Na melhor das hipóteses,
meu poema, você será lido atentamente,
comentado e lembrado.
Em uma hipótese pior,
apenas lido.
Terceira possibilidade –
escrito, de fato,
mas logo jogado no lixo.
Você pode se valer ainda de uma quarta saída –
desaparecer não escrito
murmurando satisfeito algo para si mesmo.

Da poetisa polonesa e Nobel de literatura Wislawa Szymborka, no caderno Ilustríssima, da Folha de ontem;

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Transexuais no Irã

Por considerar todo cidadão não heterossexual (alem de não reconhecer os gays, parece que até usar essa palavra por lá é proibido, por isso o termo ‘não-heterossexual’) como ‘espírito nascido no corpo errado’, governo subsidia até um terço do valor para o procedimento de troca de sexo. Mas o país é conhecido pela má qualidade das cirurgias, que precisam ser reparadas por várias outras intervenções. Alem de todo esse périplo, quem realiza o processo – especialmente os homens que se tornam mulheres, tem que lidar com o assédio explícito de quem trabalha nas forças policiais, os mesmos que deviam zelar pelo cumprimento da lei islâmica, que obviamente não prevê esse tipo de comportamento por parte deles. Transexual operado no país resume tudo muito bem:

Não teria mutilado meu corpo se a sociedade tivesse me aceitado do jeito que eu nasci

Chocante; na Folha de hoje.

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