Andarilhos famosos de Santos: a tagarela do ônibus

De repente, ela quebra o silêncio entre os passageiros do coletivo, ou já vem preparando os ouvidos alheios desde a subida no ônibus e a passagem pela roleta, imagino. O que se segue é uma conversa em alto e bom som que não parece ter mais fim, imaginária, solitária (ainda que alguns insistam em interagir com envergonhados sorrisos de lábios cerrados). Os personagens também parecem igualmente insexistentes (apesar do nome e sobrenome), sem responder há muito as tentativas de contato, feitas com as mais distantes partes do país, quiçá do estrangeiro.

Uns se assustam com a voz alta, imaginando, recesosos, ser o prenúncio de alguma confusão. Outros, de tão acostumados, levam a mão à cabeça (como eu), encostam a testa no vidro (como eu), aumentam o volume do MP3 player (como eu) ou afundam os olhos e a atenção ainda mais na leitura (como eu). Tentam, pelo menos, o volume da gritaria não colabora. Como eu.

É negra, relativamente magra, bem vestida e apessoada, com óculos também, suponho, já que nunca tive coragem de enfrentá-la de frente (ou porque alguns bancos nos separavam). Aparenta 50 e poucos anos, quase 60, tanto que seria companheira de chá de minha mãe, isso se ela fosse afeiçoada a esta bebida e à pessoas que estabelecem diálogo com o nada.

Apesar de não ser correspondida em seus devaneios super-eloquentes, a Tagarela do Ônibus profecia: “Minha vitória tá pertinho”.

(em homenagem ao Ed)

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Textos inacabados #2

(na verdade não é um texto inacabado, e sim escrito para a Rolling Stone, e que nunca foi publicado, o que dá praticamente na mesma, néam?:)

 

Interesses do mundo indie
Tratore proíbe MP3 de seus artistas na Trama Virtual 

O site Trama Virtual disponibiliza gratuitamente o download de MP3 para os internautas e consegue remunerar os artistas por cada música baixada por conta de seus anunciantes. O projeto é sucesso na rede e agrada a quase todo mundo. A Tratore, principal distribuidora de discos do mercado independente, responsável por fazer chegar o CD dos artistas com que tem contrato à 22 estados do país, não quer mais que seus contratados participem do projeto. Sócio da Tratore, Maurício Bussab alega que o site tornou-se um forte concorrente para justificar a decisão. “O artista pode fazer o que quiser com o fonograma no seu próprio site”, diz Bussab, esclarecendo que as bandas podem deixar o disco para download gratuito, mas sem passar pelo esquema da Trama Virtual e, portanto, sem receber por isso. “Até três músicas as bandas podem deixar lá como ferramenta de divulgação, mas o disco todo não da”, explica. A ação da distribuidora está casada com seu objetivo de aumentar de 2% para 5% o faturamento com venda de música digital (o catálogo já está disponível nos maiores portais da internet brasileira).

 Uma das bandas afetadas pela medida da Tratore foi o Ecos Falsos, de São Paulo. O vocalista e guitarrista Gustavo Martins tentou argumentar para não perder a renda obtida pelo download remunerado da Trama Virtual. “Ganhamos uns mil reais através do programa”, diz Martins, que acabou cedendo às novas regras.

O presidente da Trama, João Marcelo Bôscoli, acredita num formato com modelos de comercialização pagos e gratuitos coexistindo e vê com otimismo a ação da Tratore. “Isso é uma prova de que o modelo da Trama Virtual está funcionando”. Quem faz coro é o editor chefe do site, Dagoberto Donato, que minimiza o atrito contando que a ação da distribuidora tem pouco impacto sobre as quase 120 mil faixas do site.

Trama
Passado o susto com a Tratore, a gravadora planeja um calendário movimentado para este ano, depois de um 2007 em que serviços foram terceirizados, houve redução no quadro de funcionários e artistas (saíram Nação Zumbi, Tom Zé, Cansei de Ser Sexy), e apenas dois CDs foram lançados.

Bôscoli revela a intenção de lançar entre 8 e 10 discos em 2008 – os de Móveis Coloniais de Acaju (DF) e da cantora Karine Alexandrino (CE) estariam entre eles. Depois da renovação para a terceira temporada do programa Trama Virtual (Multishow), uma nova empreitada televisiva da gravadora deve acontecer na Cultura a partir de maio, com um quadro no ainda embrionário atração batizada de TV Música.

E não pára por aí: em sua passagem por São Paulo na penúltima semana de fevereiro com a banda goiana MQN, o frontman Fabrício Nobre, também responsável pela Monstro Discos, pode ter acertado com Bôscoli um festival de bandas independentes em São Paulo para o meio do ano. Quem sabe no segundo semestre, até um MP3 Player seja lançado pela Trama, com entrada para instrumentos musicais.

 

Caminho das pedras: Rolling StoneTratore, Trama Virtual, Ecos Falsos, Nação Zumbi, Tom Zé, CSS, Móveis Coloniais de Acaju, Karine Alexandrino, TV Cultura, MQN, Monstro Discos, SP Noise Festival, Multishow

Textos inacabados #1

pharrel

‘Robinho’ da música negra norte-americana salva o Live Earth

Da carreira de Lenny Kravitz, que permanece no limbo desde o último disco de inéditas, Baptism, lançado no longínquo ano de 2004, sobraram apenas os bons riffs roqueiros do single “Where Are We Runnin’?”. Quanto a Macy Gray, não fosse o jabá pago pela Universal à Apple, que estampou a capa do CD Big nas propagandas do iPhone, também não haveria muito a comentar além da cabeleira que insiste em chamar mais atenção do que sua bela e inusitada voz.

Para salvar a escalação internacional do braço carioca do Live Earth (espécie de Live 8 ambiental, capitaneado por um dos maiores defensores da causa hoje no mundo, o “ex-futuro presidente dos Estados Unidos”, Al Gore) eis que surge o nome de Pharrel Williams, espécie de Robinho da música negra moderna norte-americana, que foi comendo pelas beiradas até conquistar respeito e relativo sucesso no showbizz yankee.

Não que isso atraia o interesse da multidão de 700 mil pessoas que são esperadas no Rio de Janeiro para este sábado (07/07), graças ao apelo da parafernália de palco e luz montada sobre a areia da Praia de Copacabana, onde se apresenta uma seleção eclética de artistas que vão desde Xuxa até Jorge Benjor, passando por Vanessa da Mata, MV Bill, Marcelo D2, O Rappa e Jota Quest .

(12/07/2007 21:57)

‘Casa Pré-fabricada’*

Esse link postado pela Flávia no Twitter só confirma uma coisa da Britney de que eu já vinha desconfiando há tempos: a base para todas as músicas dela que são, digamos, ‘dançantes’, é basicamente a mesma. É uma fórmula que sobrevive a todos o CDs e, por mais incrível que possa parecer, funciona. Circus está aí mais uma vez pra provar, com certa pitada de inovação, é claro. Isso, apesar das baladas, dispensáveis.

Trocam-se as letras e a, ‘harmônica’ [sic], continua encaixando direitinho, apesar das músicas – ‘Gimme More’ e ‘Circus’ – serem de trabalhos diferentes, mas não tão distantes (repectivamente, Blackout e o novo CD homônimo).

Resta saber por quanto tempo vai durar.

 

*O título do post é uma música dos Los Hermanos.

(ao som da própria, em ‘Rock me In’, e Justice – ‘DVNO Ao-vivo em São Francisco’, pra trilha sonora do documentário dos caras, Across the Universe)

Jornalismo de verdade (?)

norman

“(…) De qualquer maneira, o Voice corresponde plenamente à minha idéia de jornal. Seus textos são parciais, tendenciosos, repletos de idiossincrasias e dos fanatismos de cada autor, exatamente como devem ser. Não me ocorre maldição mais ameaçadora para o jornalismo do que a objetividade, cujo único feito é ocultar de nós as preferências do autor, que nos permitiriam reinterpretar o que ele escreve e, assim, fazer alguma idéia do que realmente terá ocorrido. (…)”

Normal Mailer na Piauí deste mês, segunda parte da coletânea de cartas dele, que logo logo deve estar on-line (a primeira parte tá aqui, ó: http://tinyurl.com/mailernapiaui). De tão grande, ainda pode surgir mais coisa boa da leitura.

Julio Ibelli