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Xico Sá

Se um homem não conta, é um homem morto

[A crônica]  é o PF da literatura brasileira. Arroz, feijão, bife e um ovo estrelado por cima. E tem coisa melhor, na hora da fome canina?

(…) a pátria de um homem é a pátria de seu uísque, por supuesto.

Quase todo escritor brasileiro, pelo que escrevem sobre isso, toma banho depois do sexo.

Em entrevista ao jornal curitibano de literatura Rascunho – que ainda acompanha resenha de seu mais recente lançamento, Big Jato, que começa de forma épica: ‘Big Jato, de Xico Sá, é uma merda’.

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Não tire esses óculos

(…) Não há um momento X no despertar da mocidade em que seus pais lhe convoquem, acompanhados pelo rabino, o padre ou o pastor, mais um colegiado de anciãos, e perguntem: ‘Então, cria minha, chegou a hora: serás punk? Yuppie? Almofadinha? Pit boy? Mano? Intelectual com a barba por fazer? Ou crente de terninho bege?’.

Estilo é o resultado de milhares de microdecisões tomadas (ou não tomadas) ao longo de muitos anos, escolhas que vão aos poucos definindo desde a postura dos nossos ombros até a cor das nossas meias. Por isso, como descobri na semana passada, após duas horas penando numa ótica, é tão difícil comprar uma armação de óculos: pois ali você tem que decidir, no ato – ou ao menos, vá lá, revelar a si mesmo -, quem você é.

Comecei pelos mais discretos (…). Afinal, eu não queria uns óculos com proposta, queria? (…) Não queria óculos que fizessem com que (…) um frentista perguntasse pro outro ‘de quem é o troco, Lima?’, e ouvisse como resposta, ‘do artista, ali’, ou ‘do John Lennon, ali’ (…).

Por curiosidade, experimentei um daqueles oclões de acetato preto. Gostei do que vi, mas, ao mesmo tempo, me senti uma fraude. Aquelas armações vendiam um homem mais moderno do que eu. Mais antenado. Imaginei-me indo à padaria, uma equipe de TV me aborda: ‘O que você achou do último filme do Sokurov?’. Sokurov? Não, amigo, eu só tava indo comprar pão.

(…)

(…) ‘De quem é o troco?’, pergunta o frentista. ‘Daquele cara ali que, por covardia, por timidez, por orgulho, até, quem sabe, não quer dizer nada com seus óculos’. ‘Boa observação, Lima. Cê devia largar o posto e fazer uma pós em semiótica, sabia?’. ‘Tô ligado. Aqui o troco, chefia. Quer que dê uma olhada no óleo?’.

Toda vez que eu me deparo com um texto desses do Antonio Prata eu penso: o que fazer? Ajoelhar em sinal de louvação?? Mandar enquadrar???

+Antonio

‘O dinheiro perdeu sua qualidade narrativa’

O dinheiro perdeu sua qualidade narrativa, tal como aconteceu com a pintura antes. O dinheiro agora fala sozinho.

A única coisa que importa é o preço que se paga. Você mesmo, Eric, pense só: o que você comprou por US$ 104 milhões de dólares? Não foram dezenas de cômodos, vistas incomparáveis, elevadores privados. Você gastou esse dinheiro pelo próprio número em si, US$ 104 milhões. Foi isso o que você comprou.

Diálogos do filme Cosmópolis na crônica do Vladimir Safatle publicada hoje na Folha.

Um Cronenberg das antigas